Entre processos, inovação e maternidade: como nasceu a Umie Conecta

Vinte anos de experiência em operações, tecnologia e liderança ajudaram a construir uma convicção simples: clareza estrutural sustenta decisões melhores e negócios mais saudáveis.

Algumas trajetórias empreendedoras começam com uma ruptura clara. Outras surgem a partir de um processo gradual de revisão de caminho. A criação da Umie Conecta nasceu desse segundo movimento.

Em 2016, vivi uma transição profissional importante. Depois de onze anos de aprendizado no ambiente corporativo, comecei a me aproximar de forma mais direta do empreendedorismo. Era um momento de mudança de contexto. Algumas escolhas que antes faziam sentido passaram a pedir revisão.

Olhando hoje para a Umie, consigo perceber que diferentes etapas da minha carreira contribuíram para o desenho do trabalho que desenvolvo hoje. Operações, dados & tecnologia, inovação e maternidade acabaram formando um conjunto de experiências que ajudam a sustentar uma convicção simples.

Estrutura traz clareza.
E clareza sustenta decisões melhores.

O início: processos e realidade operacional

Minha relação com processos nasceu muito mais da observação prática do que da teoria. Venho de uma família de educadoras. Minha mãe é professora de inglês. Minhas tias seguiram caminhos ligados à matemática e à música. Cresci em um ambiente onde ensinar e aprender faziam parte da rotina. Essa formação despertou um interesse natural por organização do conhecimento e por formas de transmitir ideias com clareza.

Minhas escolhas profissionais me levaram a áreas onde a presença feminina ainda era pouco comum, como medicina veterinária (fora da clínica de pequenos animais), operações portuárias, logística e tecnologia. Ao longo de mais de duas décadas trabalhando em ambientes corporativos e operações complexas, participei de projetos ligados a certificações, gestão estratégica e organização de processos. Com o tempo, alguns padrões começaram a ficar claros.

Processos raramente falham apenas por execução inadequada. Em muitos casos, o problema aparece quando não existe clareza sobre responsabilidades ou sobre o fluxo de informação entre áreas.

Perguntas simples costumam revelar muito sobre a saúde de uma operação:

  • Quem executa cada etapa?
  • Quando a informação precisa circular?
  • Que dados sustentam a decisão?

Quando essas respostas estão organizadas, o ruído operacional diminui e a liderança passa a ter mais espaço para análise estratégica.

A década no ecossistema de inovação

A etapa seguinte da minha trajetória aconteceu no ambiente de startups.

Durante quase dez anos fui sócia da startup de tecnologia Fhinck. Nesse período, tive a oportunidade de viver de perto o ecossistema de inovação, participando de programas e iniciativas ligadas a organizações como Google for Startups, Cubo Itaú, AWS, entre outros.

Em 2018, fomos residentes no Google for Startups. Foi ali que tive contato com o conceito de give first, muito presente no universo da inovação aberta. A ideia central envolve contribuir com o ecossistema e compartilhar conhecimento antes de esperar retorno.

A experiência no ambiente de inovação trouxe aprendizados importantes sobre crescimento e tecnologia. O discurso sobre crescimento acelerado aparece com frequência nesse contexto. Ao longo dos anos, ficou claro que a velocidade de expansão precisa caminhar junto com a qualidade da operação. Quando processos ainda estão confusos, o crescimento tende a ampliar o problema. Algo semelhante acontece com a tecnologia.

Minha experiência trabalhando com dados, inteligência artificial e tecnologia mostrou que ferramentas tecnológicas amplificam o funcionamento de um sistema. Processos claros geram eficiência ampliada. Processos desalinhados geram mais visibilidade para as inconsistências.

Com o tempo, ficou evidente que maturidade em dados depende menos de dashboards sofisticados e mais de rotinas bem definidas de coleta, análise e decisão.

A maternidade e o redesenho das prioridades

A maternidade trouxe uma mudança importante na forma como passei a organizar minha rotina. A gestão do tempo deixou de ser apenas uma questão de produtividade. Passou a envolver energia, presença e escolhas mais conscientes. Muitas mulheres que empreendem vivem essa mesma dinâmica. Segundo diferentes levantamentos sobre empreendedorismo feminino no Brasil, uma parcela significativa das empreendedoras também exerce o papel de mãe. Essa realidade traz desafios específicos para a organização do trabalho.

Houve períodos em que meu filho brincava na piscina enquanto eu trabalhava por perto ou que as mensagens eram revisadas nas mamadas da madrugada ou as entregas finalizadas na sala de espera da fonoaudióloga. Não havia glamour nessa situação. Era simplesmente a forma possível de equilibrar diferentes responsabilidades no mesmo dia.

Esse período trouxe um aprendizado importante sobre tomada de decisão. Cada escolha relevante exige abrir mão de outras possibilidades. Na prática, liderança envolve selecionar prioridades e estruturar o ambiente de trabalho para que decisões recorrentes possam acontecer com menos esforço mental.

A maternidade também ampliou meu olhar sobre liderança. Equipes avançam com mais consistência quando existe clareza de direção, autonomia progressiva e relações de confiança.

O surgimento da Umie Conecta

Depois de quase duas décadas atuando em estruturas organizacionais diversas, chegou o momento de criar um projeto próprio. A Umie Conecta nasce com o objetivo de apoiar empreendedoras que estão em uma fase específica do negócio. Um momento em que o improviso inicial começa a gerar sobrecarga operacional. Esse ponto de transição aparece quando o negócio cresce, a equipe aumenta e as decisões continuam concentradas na fundadora. A proposta da Umie envolve ajudar a organizar essa etapa através de estrutura simples e aplicável à realidade de pequenos e médios negócios.

Quatro princípios orientam esse trabalho.

Processos como ferramenta de clareza
Processos registram decisões recorrentes e ajudam a reduzir dependência da memória da fundadora. Fluxos simples permitem que a operação funcione com mais previsibilidade.

Tecnologia como instrumento de organização
Ferramentas digitais e inteligência artificial podem ajudar a organizar informações, automatizar tarefas repetitivas e ampliar visibilidade sobre dados importantes do negócio.

Critérios para decisões recorrentes
Quando critérios estão claros, muitas decisões deixam de depender exclusivamente da liderança. Isso reduz carga mental e aumenta a autonomia da equipe.

Conexões com propósito
Negócios se desenvolvem dentro de redes de confiança. Parte do trabalho envolve conectar empreendedoras a pessoas, ferramentas e caminhos que fazem sentido dentro do contexto de cada negócio.

Reflexão final

Ao longo da minha trajetória, diferentes mudanças profissionais ampliaram meu repertório e meu entendimento sobre liderança. A adaptabilidade costuma surgir quando existe disposição para observar o contexto, revisar escolhas e reorganizar prioridades. Empreender envolve lidar com incertezas, responsabilidades e decisões frequentes. Estrutura ajuda a tornar esse processo mais sustentável.

  • Processos organizam a operação.
  • Dados ampliam a clareza.
  • Tecnologia pode simplificar rotinas.

Com esses elementos em funcionamento, a liderança ganha mais espaço para pensar o negócio com calma e construir relações mais sólidas com clientes, equipe e parceiros.

Uma pergunta costuma orientar minhas reflexões sobre gestão. Que parte da operação poderia ser simplificada hoje para apoiar decisões melhores nos próximos meses? Pequenos ajustes estruturais, quando aplicados de forma consistente, costumam gerar mudanças relevantes ao longo do tempo.

Sarah Hirota

Especialista em eficiência operacional e apaixonada por processos, tecnologia e desenvolvimento humano.